Uma surpresa em Santa Apolónia

Texto & Foto; Mário Vieira

Num desvio rápido com passagem por uma das estações principais de Lisboa, um encontro furtuito e inesperado. A situação não tão normal quanto isso começou a tornar-se percetível quando na linha ‘do meio’ (a 4, onde costumam estacionar as locomotivas de reserva) se vislumbra a cauda de um comboio invulgar, daqueles com vagões especiais utilizados nas tarefas de manutenção de via, ao passo que na linha do lado se via pessoal a trabalhar na sua renovação. A surpresa estava lá à frente; a 1512 tranquilamente a ‘borbulhar’ ao ‘Ralenti’, à espera do que fosse preciso. Mais tarde até deu um ar da sua graça, numa manobra de ida e volta para ir buscar materiais.

Testemunho de uma era em que a CP foi pioneira no Continente Europeu, a 1512 (agora deve ter outra designação, mas é mais fácil usar o ‘nome’ dos seus tempos da CP). Com efeito, depois de muito estudar e de uma guerra pelo meio a adiar-lhe os planos, a operadora decidiu dar um passo resoluto. Avançar para a ‘Dieselização’ dos seus serviços, processo que mais não é do que a substituição sistemática da tração a vapor pela tração térmica. Como no final dos anos 40 não haveria certamente nenhum fabricante capaz de satisfazer o seu desejo, a CP foi pragmática; foi às compras aos EUA. Escolheu a Alco (American Locomotive Company) como fornecedora das suas novas unidades motoras, adquirindo por isso um modelo standard do fabricante, então recentemente lançado no mercado, as RSC2. Apesar de uns poucos problemas de infância, desde logo começaram a provar quão acertada foi a sua compra, com um elevadíssimo grau de disponibilidade para todo o serviço, caindo desde cedo nas graças de quem com elas lidava. A exótica ‘Americanice’ tinha resultado, de tal modo que muitos técnicos ferroviários europeus que cá vieram observar o fenômeno saíram convencidos a repetir o processo nos seus países de origem.

Depois de una longa carreira, que só terminou já no início deste século, a série deixou de prestar serviço comercial. No entanto, além da 1501, preservada no Museu do Entroncamento (provavelmente a Diesel mais importante na história ferroviária europeia…), houve 4 unidades vendidas a empreiteiros de via (é verdade que também existe a 1525, mas essa é do modelo a seguir; RSC3, havendo lá por fora várias unidades do mesmo em uso), sendo por isso raridades mundiais, pois do modelo RSC2 só se produziram 91 unidades entre outubro de 1946 e maio de 1950, e excetuando as de cá, só existe mais uma unidade, num museu do lado de lá do Atlântico, e não está operacional.

Convenhamos que a foto da 1512, apesar do humilde comboio que encabeça, lhe faz jus ao estatuto exclusivo, graças à sua pose altiva.

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