Comunicado sobre o ramal da Lousã

A APAC – Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos de Ferro vem por este meio apelar às entidades oficiais uma rápida reanálise do destino reservado ao ramal da Lousã, no seu percurso entre Coimbra-B e Serpins.

Como maior associação portuguesa do sector, e com mais de 40 anos de actividade, a APAC não pode deixar de manifestar a sua estranheza e desagrado relativamente à forma como é encarado o futuro de uma linha ferroviária servindo uma zona de grande importância social e económica, e considera que a opção governamental pelo chamado Metrobus é uma solução desadequada para servir a mobilidade ao longo desse eixo.

Os estudos apresentados que conduziram à eleição desta opção partiram de um pressuposto cuja assumpção pelos poderes públicos não foi inteiramente realizada, e que demonstram a falta de interesse para investir seriamente no caminho de ferro no nosso país, apesar das muitas intenções propaladas ao longo do tempo. De facto, a opção pelo Metrobus é essencialmente justificada pela disrupção que a actividade ferroviária causa no atravessamento urbano entre Coimbra-Parque e Coimbra-A, o que pode e deve ser ultrapassado por soluções desniveladas, a exemplo do que acontece em situações similares por essa Europa fora e, desde logo, na nossa vizinha Espanha.

Apesar do custo a prever para tal desnivelamento, entendemos que para uma cidade da dimensão e importância de Coimbra é um custo perfeitamente razoável, sobretudo considerando que semelhantes intervenções foram já feitas em Espinho (túnel) e Trofa (túnel e viaduto) em distâncias similares. Fazemos notar que nestes casos a via ferroviária dispunha de canal totalmente segregado da via pública, com menor justificação para tal investimento quando comparado com o caso de Coimbra.

A solução rodoviária para o canal do Metrobus, apesar das soluções tecnológicas apresentadas, privará a população de um serviço mais cómodo e mais resiliente face a condições meteorológicas adversas, bastante habituais ao longo do percurso entre Coimbra e Serpins. Também a capacidade oferecida é potencialmente insuficiente – o canal será mantido em via única, tendo os autocarros que cruzar nas estações. Os exemplos apresentados nos estudos referem-se, quase todos, a realidades não comparáveis à envolvente conimbricense, e apontam para tempos de percurso inclusivamente piores do que a operação ferroviária apresentava em 2009. Coimbra – Lousã demorará 69 minutos, contra 51 em 2009. Este cenário é indesejável em 2018, quando a pressão para a existência de transportes públicos mais rápidos é decisiva para alterar as quotas modais no futuro.

A APAC defende por isso a imediata reposição e electrificação da linha entre Coimbra-Parque e Serpins, o que permitiria não apenas melhorar a eficiência energética destes serviços face à situação passada, como baixar os tempos de percurso de 2009 atrás citados em pelo menos dez minutos, fruto da muito superior performance do material eléctrico disponível na rede portuguesa – veja-se como exemplo as reduções observadas no eixo Barreiro – Praias-Sado, após a sua electrificação. Defendemos ainda que deve ser iniciado o estudo, com vista à sua execução, do desnivelamento entre Coimbra-Parque e Coimbra-A.

Relativamente à estação de Coimbra-A, cujo fecho está também previsto em proveito da instalação do Metrobus também entre Coimbra-A e Coimbra-B, a APAC vem manifestar a sua estranheza e o seu repúdio por uma intenção que contraria manifestamente todas as melhores práticas no tema. A estação de Coimbra-A é, além de mais central, um importante buffer na operação ferroviária da área, onde confluem diversos serviços regionais e urbanos da Figueira da Foz, Entroncamento, Guarda, Aveiro e Porto, que não apenas podem deixar os passageiros imediatamente em zona central na cidade, evitando os transbordos, como habilita os operadores a uma gestão mais flexível das rotações do material circulante, muito mais difícil de realizar numa estação de passagem como Coimbra-B, sobretudo se não for ampliada.

Entendemos que o caminho traçado para a região de Coimbra e da sua mobilidade representa uma visão de um Estado central que olha para o país que há para lá de Lisboa e Porto como um fardo e onde importa reduzir no curto prazo o investimento ao mínimo indispensável, em vez de assumir opções mais a par com a legítima aspiração das populações a servir. Recordamos que o investimento na ferrovia, apesar dos muitos programas de investimento anunciados nas últimas décadas, continua em mínimos históricos e em total contraciclo com os nossos parceiros europeus, um cenário que as presentes opções só reforçam.

A APAC termina defendendo um pacto de regime em Portugal para fomentar realmente o investimento em caminhos de ferro no nosso país, e entende que se o país pretende dar expressão real às prioridades retóricas que vão sendo elencadas, deve garantir um volume anual de investimento em novas infraestruturas e em novo material circulante expressivamente superior ao actualmente previsto, sob pena do nosso país ser o único da Europa onde o investimento em ferrovia é prioritário apenas nos discursos, decorrendo daí impactos futuros no PIB potencial do país que são especialmente relevantes num país periférico como o nosso.

Urge apostar fortemente nos caminhos de ferro e a linha da Lousã deve ser o primeiro a corrigir. O tempo dos erros históricos neste domínio tem de ter um fim.

Deixe uma resposta